|| RPG de Horror ||
   
   
 
Visões
por r . t a b a j a r a
 

I

Se minhas lembranças são falsas, eu mesmo digo que devo ficar aqui no sanatório por mais três anos e terminar o meu tratamento. Agora, se os fatos ocorridos no 6º andar do Instituto de Tecnologia Mamedes naquele dia 8 de fevereiro forem reais, nem quero pensar no horror que me espera fora desse covil de loucos. Só sei que levarei mais a sério os delírios do velho jardineiro Julio, que ouviu tão fascinado essa história, que aqui deixarei registrada antes que os remédios de minha dieta médica me façam esquecer por completo essa experiência.

Quanto às minhas obsessões fora do sanatório, pouco tenho a falar. É certo, constudo, que esses anos preso aqui me garantiram um grande conhecimento. Sendo de origem humilde e tendo que trabalhar como faxineiro para sustentar a minha família, nunca tive a oportunidade e o tempo que aqui tenho para aprimorar meus estudos e conhecimentos gerais. Nesses três anos, pude ler e aprender muita coisa, e às vezes me surpreendo com a capacidade que tive para assimilar coisas sobre as quais os psiquiatras daqui afirmam que seria necessária uma faculdade ou um pré-conhecimento para formular teorias ou mesmo comentar abertamente esses assuntos como assim eu faço.

Eu poderia formular questões ou acusações sobre esse meu “conhecimento misterioso” e dizer que posso ter sofrido, pela corporação Mamedes, uma lavagem cerebral e que na verdade minhas lembranças como faxineiro foram implantadas em mim aqui nesse sanatório. Também poderia dizer que meu elevado conhecimento em Química possa sugerir que eu tenha sido um cientista e que, por saber demais dos atos ilegais da corporação, fui trazido para cá.

Mas nada disso é certo, e como disse, vindo de família humilde e tendo a tranqüilidade de saber que o governo e a empresa Mamedes estão garantindo o sustento da minha família devido a uma indenização por danos físicos acontecidos a mim, pude me entregar aos estudos de uma forma mais atenciosa e esforçada que qualquer um. Justamente por isso contarei a minha história da maneira que lembro, não mais, não menos, pois não pretendo de forma alguma induzir nem leitor nem a mim mesmo à qualquer fantasia que uma mente perturbada por horrores incompreensíveis possa assim fazer.

Minha paralisia, dano ao qual o Instituto me indeniza, está diretamente ligada aos fatos do dia 8. As lembranças da pancada são inexistentes em minha mente, e a minha vinda para cá são somente flashs difusos com imagens da cientista Camila me carregando nos braços intercaladas com barulhos de sirenes de ambulância e o rosto do meu psiquiatra com uma grande seringa na mão dizendo: - Ok, amigo, isso aqui vai fazer você só acordar amanhã e pensar que tudo isso não passou de um sonho.

II

Era tarde no Instituto. Passavam das 19 horas, e eu, como sempre, começava a limpar tudo. Como os cientistas da Mamedes são instruídos a trabalhar de manhã, os faxineiros limpam tudo à noite. Naquele dia em especial eu iria cobrir a folga de um amigo, tendo que limpar as salas e os corredores do 6º andar sozinho. Esse é o andar mais bem organizado do prédio. Todas as portas e corredores são automatizados, isso porque é nele que a alta ciência é praticada, e os experimentos “secretos” ali são realizados. É por isso que em algumas salas os faxineiros não entram para limpar, nem que quisessem, pois algumas delas são realmente bem trancadas.

Foi numa dessas salas que, passando na frente ao limpar o corredor, ouvi o barulho de uma discussão. Não que eu ouvisse essa discussão enquanto a porta estivesse fechada, nem poderia, pois a porta era uma das mais bem seladas daquele corredor. Entretanto, quando um senhor baixo, velho, com roupas de cientista saiu, pude não só ouvir o barulho de dentro da sala como também sua replica a alguém que não queria que ele saísse:
- Loucos, todos vocês. Eu não quero ser cúmplice nisso. E não serei.

Ele saiu. Nada naquele prédio me interessava, principalmente uma discussão entre cientistas. Meu único dever ali era manter aquele corredor limpo. Continuei limpando.

Ainda faltava uma boa parte para que terminasse minha tarefa. Meia hora depois, estando em um corredor paralelo e com aquele silêncio de um andar de um prédio vazio às 8 horas da noite, pude escutar a porta se abrindo mais uma vez. Ouvi apenas o barulho de pessoas gritando e discutindo muito alto. Escutei algumas palavras como “caminho certo” ou “fórmula correta” antes da porta se fechar, mas dessa vez nem o equipamento que a porta tem para fechar suavemente pôde conter a força que a pessoa que saiu usou para fechá-la. Acredito que essa pessoa, que não pude ver, tenha chutado a porta depois que ela se fechou.

Eu havia acabado de limpar aquele andar. Fui para o terceiro. Comecei pelos corredores. Um pano úmido, água e uma noite de tranqüilidade vendo a lua pela janela. Comecei a pensar, então, nos meus problemas. Não eram muitos, a maioria deles financeiros. Pensei neles, pois a cada minuto me indagava como um local de trabalho, com pessoas intelectuais como eles eram, poderia ter tanta discórdia. Pensava eu na minha vida simples e no meu então companheiro de trabalho que estimava tanto e que muitas vezes assistiu um bom jogo de futebol na companhia de minha família e vizinhos.

Naquele instante, o elevador do corredor central abriu a porta. Duas pessoas saíram apressadas para uma outra sala e nem notaram minha presença. Estavam mais preocupados em discutir a “sanidade da cientista Camila, que a cada dia vinha se afundando em suas pesquisas que mais gastavam o dinheiro da corporação do que traziam resultados sólidos”. Pude ouvir também um dos dois senhores perguntando se deveriam voltar e assistir os experimentos, e me lembro como se fosse ontem, a resposta:
- Ouça o que estou dizendo: Louca! Louca! Ela não sabe com o que está lhe dando, você quer voltar lá em cima? Eu vou pegar a chave do meu carro e só voltar amanhã, isso se amanhã esse prédio não estiver interditado pelos homens da segurança privada da Mamedes.

Veja bem, eu, até então, não tinha muito conhecimento em química ou qualquer coisa referente a estudos científicos. Ouvir esse último comentário, se não me deixou muito curioso para saber o que estava acontecendo naquela sala, deixou me com muito medo do que poderia acontecer se realmente alguma coisa desse errada enquanto eu ainda estivesse no prédio...

Minha curiosidade foi mais forte que meu medo e, fingindo que estava limpando o corredor, fui até a sala onde os dois homens conversavam. A porta estava entreaberta e foram poucas as coisas que consegui ouvir:

- Não, não se pode fazer essas experiências num subsolo (...) tornando fraco (...) são feitos no sexto andar (...) da força retirada.(...) TÊM pensamentos (...) não resistiria ao gás (...) NUNCA O AMARELO. O que vai adiantar? (...) ROXO! É o que devemos fazer (...) mas ela não ouve!

O elevador central abriu novamente. Apavorado, um homem de aparência jovem saiu correndo em direção à sala dos dois homens, sala da qual eu estava em frente. Sua roupa branca estava toda manchada de sangue, e sua expressão facial era de horror. Não o horror que temos quando vimos uma pessoa ser atropelada, ou quando uma pessoa desprevenida assiste a um assassinato, era uma expressão que poderia definir como a de uma pessoa que viu o que ninguém nunca verá.

Uma mão feminina segurava a porta do elevador para que a mesma não fechasse, e eu, com um instinto de auxílio caminhei até lá. A mão da mulher também estava manchada e alguns gemidos de dor eram facilmente ouvidos naquele corredor inteiro. Toda aquela confusão me deixou temeroso do que poderia ver lá dentro, por isso caminhei lento segurando o esfregão com as duas mãos. Estava quase perto da porta para auxiliar a moça com o enfermo e ver qual era a gravidade do ferimento, quando senti uma mão no meu ombro:

- Não. Limpe o sangue desse corredor. Limpe o elevador quando ele voltar. Depois, vá ate o 6º andar e limpe tudo. Camila, você fechou a porta? – uma voz feminina dentro do elevador respondeu positivamente – Certo. Então faça isso, limpe tudo e vá embora. EMBORA ouviu bem?

III

Quando o elevador voltou e eu me preparava para limpá-lo e depois subir, encontrei com uma cientista dentro dele. Ela não era alta, talvez 1m 65 tinha cabelos ondulados, ruivos, e estava de olhos fechados com a mão massageando a testa. O nome em seu casaco “Camila B.C.” me fez tremer e por um instante não querer entrar no elevador. Entrei.

O estado do elevador era terrível. Ainda hoje me pergunto se o homem (ou mulher) que se acidentou naquela noite ainda possa estar vivo. De qualquer forma, mesmo com a cientista dentro, comecei a limpar o espelho e o silêncio que pairou naqueles segundos da subida de três andares me pareceram horas.

Travei o elevador quando chegamos ao sexto andar e comecei a limpá-lo. Camila entrou na sala e fechou a porta. Quando eu havia terminado com o elevador, a cientista saiu da sala. Ela segurava sua bolsa e estava com um sobretudo por cima de suas roupas manchadas. Entrou no elevador e desceu. A sala estava trancada e toda escura. Minha curiosidade me fez olhar pela janela da porta, mas nada consegui ver. Já passavam das 9 horas e com certeza eu era a única pessoa a serviço no prédio, sem contar, lógico, o vigia noturno que estaria agora na recepção no primeiro andar.

Estava terminando o corredor quando o elevador voltou. Camila saiu dele e me olhou. Pegou seu cartão magnético com muita pressa e resmungou alguma coisa como “estava invertido”. Ela entrou e acendeu todas as luzes do laboratório.

Esse é o momento do meu relato que devo ser o mais claro possível para que não haja nenhuma má interpretação nas coisas que vou descrever. As lembranças desses momentos ainda estão muito bem vivas dentro de minha pessoa, e até mesmo tremo quando penso nos fatos que sucederam a entrada de Camila naquela sala dos horrores.

Camila fechou a porta. Não sei o que deu em mim, mas depois de terminar de limpar o corredor quis continuar no andar. É um local agradável à noite, pois as janelas do corredor, dão para o jardim dianteiro, e à noite, sem nenhuma nuvem, faziam as copas das árvores brilharem um azul quase que místico conferido pela lua que brilhava intensamente aquela noite, mesmo estando em período minguante.

Depois de vinte minutos entregue à devaneios, a porta da sala se abriu violentamente. Camila saiu com o rosto branco, seu olhar era de pavor. Carregava nas mãos um extintor de incêndio amarelo e a única coisa que ela conseguiu dizer ofegante foi “CORRE!”.

IV

Mesmo sem saber porque, talvez por entrar no pânico da cientista, desci as escadas do prédio numa velocidade que nunca imaginei poder. Camila, que só fazia chorar, segurava debilmente aquele extintor de incêndio amarelo e mal conseguia saber onde estava. Estávamos indo para o estacionamento no subsolo.

No instante em que Camila saiu correndo daquela sala em minha direção, algumas imagens na minha mente se confundiram. Ainda descendo as escadas, comecei a lembrar o que exatamente aconteceu naquele momento. Lembro que ela vinha em minha direção gritando para irmos ao subsolo e a porta atrás dela se fechou. Ela cruzou o corredor onde eu havia permanecido parado e pude ver a porta novamente se abrindo. Imaginei que algum outro cientista estivesse lá dentro e o aguardei sair da sala. A porta abriu sua extensão total e visto que ela abria para a minha direção, eu só veria alguém quando ela se fechasse, mas nesse momento ninguém apareceu do lado de fora.

Digo que minhas visões desse momento são confusas, pois nesse instante, quando a porta se fechou e ninguém supostamente a abriu, eu apaguei. Pude apenas ver o corredor à minha frente vazio e um escuro sucedeu.

Ainda descendo as escadas e escutando os lamentos de Camila, algumas imagens do momento em que apaguei vieram. E essas imagens me fizeram correr ainda mais desesperado para baixo.

Foi como se minha mente e meus olhos por um instante saíssem do meu corpo e aparecessem do lado oposto do corredor onde estava. Eu vi claramente EU olhando para mim. Como se minha mente é quem tivesse saído da porta e ela visse o meu corpo do outro lado do corredor esperando o suposto cientista sair.

Essa minha segunda visão pôde ver a Camila abrindo o extintor contra a minha pessoa que estava parada catatônica e me puxado com extrema força daquele local, levando a nós dois em direção da escada.

Se minha mente pôde mesmo sair do meu corpo, ou se os experimentos químicos da sala vazaram e quando os inalei tive esse desnorteamento, eu não posso dizer, mas que a química contida naquele extintor amarelo recobrou os meus sentidos, isso era certo.

Ainda correndo desesperadamente pelas escadas, Camila ia repetindo em voz baixa para si mesma: - É fraco no subsolo, é fraco no subsolo, por isso que o laboratório é no sexto andar, é fraco no subsolo...

Chegamos ao subsolo. Havia apenas dois carros estacionados. Eu perguntei qual deles era o carro da Camila e ela não me ouviu. O que quer que ela estivesse pensando, ela fazia isso olhando para a porta, enquanto nos distanciávamos dela.

Próximo ao carro mais distante em relação a porta ela parou. Desesperada depois de procurar a chave sem êxito quebrou a janela de traz com o extintor de incêndio, limpando todos os cacos que ficaram na rebarba.

- ENTRA – Foi o que ela disse. Logo em seguida, saiu correndo em direção a porta que havíamos chegado e começou a despejar todo o gás de dentro do extintor. Ela o fazia de uma forma que o gás se espalhasse o máximo possível.

Eu entrei no carro e observei pela janela. Quando o gás acabou, ela jogou o extintor para perto do primeiro carro e correu para onde eu estava. Camila entrou no carro depois de achar a chave e desligou o alarme que havia disparado. Ela me instruiu a fazer o menor barulho possível. Fiquei quieto.

V

Não posso precisar o tempo que ficamos parados naquele silêncio aterrorizante. Os mais pequenos sons nos pareciam altos, e cheguei a ficar com medo que as batidas do meu coração atraíssem a atenção de seja lá o que fosse que estávamos nos escondendo. Porque era nítido que estávamos nos escondendo.

O som da porta da escada do subsolo se abrindo causou extremo pânico em Camila, que apertou forte minha mão. A porta fechou e eu esperava que as luzes automáticas do estacionamento se acendessem com o caminhar da pessoa que havia entrado, mas isso não aconteceu.

Podíamos ouvir algumas folhas de jornal que balançavam com o vento naquela garagem sombria, mas eu não consegui escutar os sons dos passos da coisa que caminhou até o extintor de incêndio. O extintor balançou varias vezes até que tive a impressão de que ele foi levantado. Nesse momento, as luzes daquele ponto da garagem se acenderam. Talvez por não esperar que isso acontecesse aquela... coisa... largou o extintor assustada e o som tenebroso do eco metálico quase me fez desfalecer.

Ainda segurando minha mão, Camila sibilava: - vai enfraquecer, vai enfraquecer, o gaz vai enfraquecê-lo, estamos no subsolo, ele está visível...

Tomei a decisão de levantar a cabeça e ver pelo vidro de trás o que estava nos perseguindo. Eu, até o momento havia entrado nas loucuras da Camila e nem mesmo pude saber o que estávamos fazendo ali.

Levantei-me, olhei pela janela traseira e aquela estranha sensação de leveza e desnorteamento me veio novamente. Mas eu pude vê-lo. Fluorescente, febrilmente verde com suas partes corpóreas em movimentos estranhamente circulares.

Não era humano. Não era sólido. Não saberia descrever aquela criatura por mais que tentasse. Era como se uma nuvem pudesse assumir forma de raízes e essas mesmas raízes se enrolassem, como duas minhocas se enrolam, brilhando num verde transparente que pulsava cada vez mais transparente. Era nítido que apenas conseguia vê-la enquanto ela estava sobre os locais onde Camila espalhou o gás do extintor amarelo, pois tão logo ela ia para um lugar onde não havia o gás ela sumia.

VI

Foi com um grito que despertei. Nunca na minha vida esperava ver uma pessoa morta como eu tinha visto o vigia noturno. Partes do seu corpo, ou melhor, de sua carne, não existiam, mas os ossos estavam lá. Seu corpo no chão me fazia pensar que um balde de ácido supercorrosivo tivesse sido jogado sobre ele em vários pontos de seu corpo.

Depois da visão do... gás... as imagens do tempo entre sair da garagem e ir até

o andar térreo confundiram-se novamente. Mais uma vez tive aquela terrível sensação de ver através dos olhos da criatura, mas dessa vez foi pior. Comecei a lembrar que pude entrar em seus pensamentos como ela deve ter entrado nos meus.

Senti a agonia dela presa no laboratório. Senti, no pensamento dela, como era terrível o material que usaram para construir esse prédio, que o impedia de fluir livre. E me vi novamente na visão dela. Eu vi Camila abrindo a porta por dentro do carro depois de um grito aterrorizante meu, indo até o lado onde estava e me arrastando como podia até a porta das escadarias. Minha visão estando nos pensamentos da coisa foi sumindo e lembro de uma sensação de desmaio.

Outras imagens menos nítidas são as que mais agradeço por serem assim. São imagens em primeira pessoa do encontro do vigia com a coisa. As visões do rosto apavorado do vigia e seus movimentos contorcidos após ser atingido por algo que eu não soube identificar seriam dignas do melhor filme de horror trash...

Camila entrou no elevador principal e gritou para que eu entrasse e deixasse o corpo. Quando perguntei o que estava acontecendo e o que era aquilo ela me respondeu com uma certa ironia: - A prova de que eu preciso estudar mais química...

Chegamos no sexto andar e entramos na “sala secreta”. Pensei que iria encontrar um caos, mas não, estava tudo muito bem limpo e organizado. Porque subimos até lá novamente em vez de fugirmos, era uma pergunta que pretendia fazer, mas minhas duas únicas ações contrárias às de Camila, só me levaram a fatos insanos...

Muitos tubos de ensaios, equipamentos que nunca tinha visto e computadores estavam lá, mas o que me chamou mais a atenção foram cinco extintores de incêndio colocados em locais de fácil acesso naquela sala. Dois deles eram amarelos e três eram roxos.

Camila pegou novamente um extintor amarelo e me orientou a pegar o outro. Ela estava tremendamente assustada e me disse que ambos tínhamos que ser fortes, pois o gás iria voltar, mais fraco, mas iria voltar.

Olhando novamente o laboratório, percebi que havia uma outra porta como a da entrada. Essa porta, contudo, não tinha nenhuma janela de visão e estava entreaberta. Ainda olhando para a primeira porta, esperando que o gás chegasse, não pude deixar de dar uns passos para trás e observar o que estaria dentro daquela sub-sala.

Era incrível. Eu jamais poderia imaginar que dentro daquele prédio uma coisa tão grandiosa como aquela poderia estar lá. Era uma árvore. Todo o prédio havia sido construído em volta dessa grande árvore, cujo topo estava no sexto andar. Olhei para todo o vão que a árvore estava desde cima até em baixo. O teto dessa parte do prédio era aberto e o chão, lá embaixo, no primeiro andar, ainda era de barro, sendo possível enxergar outras árvores menores em volta desta.

VII

Essas são as lembranças mais confusas de todas. Não que elas não sejam reais. Muito pelo contrário. Mas são elas que definem o fechamento dessa história, e são elas que podem explicar muita coisa para aqueles que estão tentando ainda acreditar em minhas palavras.

Assim que a porta do laboratório abriu, Camila disparou o extintor de incêndio contra a criatura e gritou para que eu fizesse o mesmo. Nesses poucos milésimos de segundos, lembrei do pouco que pude escutar da conversa dos dois cientistas no terceiro andar, sobre a Camila insistir em usar alguma coisa amarela sendo que o que deveria ser feito era usar o roxo. Como todos os cientistas estavam contra ela, e minha vida dependia do sucesso desse contra-ataque, tomei em minhas mãos o extintor roxo, pulei na frente da cientista e disparei-o contra a criatura.

As imagens da minha visão vendo o monstro e a visão do monstro me vendo explodiram na minha cabeça. Sentia a dor do gás roxo me atingindo assim como a criatura sentiu que, em meu corpo, deveria usá-lo sem parar. Essa troca de pensamentos e imagens aparentemente sem explicação, me fizeram enxergar muito além de onde os olhos podem ver.

Dentro das lembranças da criatura pude ver um campo aberto, cheio de árvores como aquela que está presa dentro do prédio. Pude ver também caminhões de construção derrubando-as e deixando apenas uma, onde o prédio seria construído.

Outras imagens como a de cientistas trabalhando, eram mostradas a mim. E vozes entoando palavras como “espírito”, “essência”, “química da vida” e “testaremos primeiro com árvores” eu podia ouvir claramente, como se ouve uma pessoa ao seu lado.

Depois dessas imagens e sons, só lembro de Camila me carregando nos braços, de sirenes de ambulância e do rosto do meu psiquiatra com uma grande seringa na mão dizendo: - Ok, amigo, isso aqui vai fazer você só acordar amanhã e pensar que tudo isso não passou de um sonho.

VIII

Um mês depois, comecei a lembrar de tudo; eu já estava no sanatório. Os remédios que me davam, fortíssimos, me deixavam sonados o dia inteiro. Tentando procurar mais sobre o que havia acontecido comigo, acabei achando um recorte de jornal que se não me faz acreditar que realmente preciso ficar aqui, me faz ter a certeza de que o Instituto de Tecnologia Mamedes mexe com coisas realmente estranhas:

Vazamento no Instituto Mamedes causa grandes danos

No último dia 8 de fevereiro, às 23h30 a polícia local foi chamada com urgência ao Instituto de Tecnologia Mamedes. Tratava-se de um caso de assassinato duplo cometido pelo Sr. Ricci L que atualmente está confinado aos cuidados dos psiquiatras no Sanatório para Doentes Mentais Oeste.
Ricci L, 24, sem antecedentes criminais, faxineiro do Instituto há dois anos, após entrar em contato com gases tóxicos alucinógenos altamente nocivos, teve instantaneamente crise violenta de psicose. Em sua crise, ele travou uma perseguição com a cientista Camila B. C., que fazia serão no instituto, e matou e esquartejou o cientista Murilo R. e o vigia noturno Pablo G., utilizando-se de instrumentos como bisturis e ácidos altamente corrosivos conseguidos no próprio instituto.

Segundo a assessoria de imprensa da Mamedes, Ricci entrou em salas proibidas e sua faxina descuidada pode ter gerado a eliminação desses gazes. A empresa reconhece essa falha no que se refere à segurança dos funcionários quanto ao bom armazenamento de tais produtos químicos, mas garante que a falha foi humana, e que já esta sendo feita a procura da pessoa responsável pelo não fechamento das portas de segurança. O instituto afirma ainda, que todos os danos causados por tal falha serão abonados sem que seja necessário nenhum processo jurídico que degrade o bom nome da empresa.

Questionada sobre quais pesquisas estariam sendo feitas para que gás tão poderoso pudesse existir, a assessoria nada disse, mas afirmou que todos os investimentos da Mamedes são de ordem legal e estritamente secretos.